Bíblia foi manipulada como desculpa para subjugar negros, revela doutor.

De Rondonópolis - Débora Siqueira

 

No livro “O Beabá do Racismo contra o Negro Brasileiro”, o professor pós doutor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Flávio Antônio da Silva Nascimento, integrante do Movimento Negro de Rondonópolis (MNR), revela dentre tantos assuntos que permeiam o racismo, a origem deste mal. É na passagem bíblica sobre a Maldição de Cã que reside a raiz do preconceito racial, tráfico negreiro, a escravidão, a suposta índole malévola dos negros e o estigma que perduraria por séculos.

Conforme o livro do professor Flávio Nascimento, na Antiguidade Clássica, os povos julgavam o conceito de raça pela cultura, pouco tendo a ver com a cor da pele. Mas a partir do século VIII da era Cristã foi 'forjada' uma passagem bíblica, a Maldição de Cã como argumento para subjugar um ser humano pela aparência física tratando-o como ser humano inferior. A Igreja Católica passou a comprar e possuir escravos africanos. Para embasar, utilizou-se da Maldição de Cã.

No livro de Gênesis conta-se a história de Noé e os três filhos dele Sem, Cã e Jafé. Depois de Noé se embriagar, Cã teria visto a nudez do pai e contou aos dois irmãos. Sem e Jafé andaram de costas levando uma capa para cobrir o pai. Quando despertou do sono, Noé tomou conhecimento e amaldiçoou o filho. “Maldito seja Canaã e seja servo dos servos a seus irmãos”. Por outro lado, Noé abençoou os outros dois filhos e sempre confirmando que Canaã lhe seja servo.

“Na escravidão, o trabalho rude, pesado, grosseiro e o trabalho em geral braçal era para o negro, por ele ser considerado um decaído frente a Deus. Imposição da mansidão e da docilidade pelo poder da Palavra e do chicote aos oprimidos; emprego do batismo era como distinção e início da redenção do negro”, explicou ao Olhar Direto o professor Flavio Nascimento.

Muito do racismo atual e da violência contra o negro, um ser considerado inferior nas mentes das pessoas, esta assentado na violência social originada no passado para defesas de privilégios, benesses e mordomias que prosseguem até hoje sob novas formas.

No século XVIII, em um episódio em Campo Grande, Minas Gerais, os bandeirantes apresentaram 3000 pares de orelhas como prova de destruição de um quilombo. O negro fugitivo recapturado recebia uma letra F com ferro em brasa. “Como serão as torturas nas delegacias e presídios atuais? Que juízos sobre os negros foram construídos desde então? Por que a abordagem policial envolvendo outro negro precisa ser desrespeitosa, agressiva e ofensiva?”.

História da África

O ensino da História da África e do Negro Brasileiro seria um caminho alternativo à discriminação racial. O ensino da História mostra apenas a visão eurocêntrica do mundo e os negros apresentados como inferiores e escravizados. Não mostra as contribuições deles para a cultura brasileira. “Apesar de ser obrigatório pela lei 10.639, desde 2003, as escolas públicas e particulares ignoram o ensino da História da África na grade curricular”.

Dentre as coisas que devem ser aprendida pelas crianças na escola é de que a humanidade começou na África negra. Os africanos antigos legaram o surgimento da civilização e as invenções básicas para qualquer sociedade: agricultura, pecuária e metalurgia.

O professor aponta que Brasil foi um dos maiores traficantes de escravizados do mundo e acumulou riquezas com isso, ajudando na desestabilização e enfraquecimento de várias regiões da África como Congo, Angola, Guiné e Moçambique.

“É bem possível que os países que praticaram esse crime hediondo contra a humanidade (escravidão negra, tráfico de escravizados e diáspora africana) não tenham interesse em conhecer a História da África ou não querem que esta fosse ensinada para que não ficasse denotada a extensão da tragédia, do genocídio que o homem branco, burguês e cristão perpetuou contra os povos africanos”, escreveu o professor no livro.

 

 

Por: Ivone Lima

Pontaldoaraguaianews.com

COMENTÁRIOS

Nenhum comentário foi encontrado.

Novo comentário