30-11-2011-Ex-escrivã diz ter dossiê sobre venda de sentença no TJ.

Beatriz Árias diz que documento é uma garantia de vida."Tudo no Tribunal é movido a dinheiro", diz ela

 

LISLAINE DOS ANJOS
DA REDAÇÃO

Em um depoimento marcado por contradições – e que durou cerca de duas horas e meia –, na noite de ontem (29), no Tribunal do Júri, a ex-escrivã do Fórum de Cuiabá, Beatriz Árias, fez uma revelação que surpreendeu os jurados e até os membros da defesa e do Ministério Público Federal (MPF).

Árias afirmou que tem em seu poder, desde a morte do juiz Leopoldino Marques do Amaral, em 1999, documentos juntados por ele – e repassados a ela, antes de sua execução – que comprovariam a existência de um esquema de venda de sentenças dentro do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.

O primeiro dia de julgamento do empresário Josino Guimarães, acusado de ser o mandante do assassinato do juiz Leopoldino terminou às 21h de ontem. A última testemunha da acusação ouvida foi justamente Beatriz Árias. Ela já foi condenada, em 2001, a 12 anos de detenção como co-autora do homicídio, mas está em liberdade.

No depoimento, a ex-escrivã contou como foi construído o seu relacionamento com o juiz e, até mesmo, qual foi o seu envolvimento na morte do magistrado, ao acompanhá-lo em uma viagem ao Paraguai, em setembro de 1999, da qual ele saiu morto.

Indagada pelo Ministério Público Federal da razão pela qual não entregou os documentos que poderiam ajudá-la, até mesmo, a reforçar o seu discurso de inocência, durante o processo em que foi condenada, há dez anos atrás, Árias afirmou que continuará sem revelar o conteúdo do dossiê montado por Leopoldino como garantia de que não será assassinada.

“Todo mundo sabe como funciona a Justiça Estadual neste Estado. É tudo movido à base de dinheiro, com raras pessoas honestas. Quem tem dinheiro, pode. Quem não tem, morre”, declarou Beatriz Árias.

Para reforçar sua decisão, a ex-escrivã contou que, ao ser condenada, não perdeu a função que exercia.

No entanto, ela alega ter sido procurada, em 2006, por membros do Tribunal de Justiça, que propuseram à ela entregar os documentos que possuía para que, em troca, fosse reintegrada ao quadro de funcionários do Judiciário. Com isso, após um mês de volta ao serviço, ela seria contemplada com a aposentadoria.

Árias disse ter recusado a proposta e repetiu que só terão acesso aos documentos, fitas e fotos após a sua morte.

Ameaças

Somente após uma hora e meia de oitiva com a acusação, é que Beatriz Árias, finalmente, tocou no nome de Josino Guimarães e nas supostas ameaças que o empresário teria feito a Leopoldino.

Segundo ela, durante a viagem feita ao Paraguai, da qual Leopoldino não mais retornaria, o juiz estadual teria confidenciado à Arias que soubera, por meio de um informante de dentro do TJ, que havia um esquema para silenciá-lo, em função das denúncias que ele havia feito sobre compra e venda de sentenças, dentro do TJMT.

Leopoldino teria revelado que recebera a informação sobre uma reunião que ocorrera em Chapada dos Guimarães (67 km ao Norte de Cuiabá), na casa de Josino, e que teria envolvido desembargadores e outros membros do TJ. 

A denúncia foi feita, anteriormente, em depoimento por videoconferência, pelo juiz aposentado José Geraldo Palmeira, que citou os nomes dos desembargadores Odiles de Freitas e Paulo Lessa (atual secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos).

Segundo o juiz, logo após essa reunião, Josino teria se encontrado com o militar José Jesus de Freitas, conhecido como "Sargento Jesus", e lhe oferecido uma grande soma em dinheiro para que “desse um jeito no Leopoldino”.

O fato também foi registrado em depoimento do secretário-adjunto de Segurança Pública Alexandre Bustamante, que, na época, respondia como chefe do Núcleo de Inteligência da Polícia Federal e tinha o militar como um de seus informantes na cidade.

O juiz Palmeira afirmou também que Josino já teria feito “rondas” em frente ao prédio onde Leopoldino morava, em Cuiabá, sempre acompanhado de um outro homem, em uma caminhonete preta.

Dossiê comprometedor

Beatriz Árias disse que, então, Leopoldino lhe contou que pretendia entregar à ela três vias do dossiê montado por ele, para que ela entregasse uma cópia para a imprensa, outra à CPI do Judiciário, no Congresso Nacional, e uma terceira via ao Tribunal de Justiça, mas que o plano não foi concretizado porque nem tudo foi entregue pelo juiz estadual.

A ex-escrivã afirmou que Leopoldino saberia, ainda, de um suposto desvio ocorrido na Vara da Família, no montante de pouco mais de R$ 2 milhões. Dinheiro esse que ele também que usaria, após sair do país, para recomeçar a vida na Argentina, com outros documentos, a fim de evitar um possível assassinato.

Assédio

No depoimento ao Júri, Beatriz Árias revelou ter sofrido assédio sexual por parte de vários magistrados, ao ingressar no Fórum, tendo confessado a situação a Leopoldino.

Posteriormente, eles começaram a namorar e chegaram a ficar noivos. Árias afirmou que o relacionamento só acabou porque a então esposa do magistrado descobriu tudo e teria ameaçado matar os dois.

Com o fim do relacionamento, Árias teria se afastado do juiz. No entanto, Leopoldino começou a pressioná-la, após boatos de que a filha mais nova da ex-escrivã seria fruto do relacionamento mantido entre eles. Mesmo com Árias negando que o magistrado seria o pai da criança, Leopoldino passou, então, a pagar uma pensão à menina.

Beatriz Árias se preocupou, durante todo o seu depoimento, em afirmar ser inocente no assassinato do juiz estadual, chegando a dizer que foi coagida pelo delegado da Polícia Federal, na época, José Pinto de Luna, que então conduzia o inquérito, a confessar a autoria do crime.

Segundo ela, Luna a obrigou a dizer que o valor depositado por Leopoldino em sua conta, nos dias que antecederam à sua morte, um montante que somaria R$ 30,5 mil, era referente a um pagamento para que a ex-escrivã o levasse até o Paraguai. No entanto, ela alega que o valor teria sido dado pelo juiz para cobrir os estudos da filha.

Árias disse que aceitou mudar a versão dos fatos por medo de que o irmão, Joamildo Barbosa, ficasse preso, uma vez que ele foi detido no banco, quando foi sacar o dinheiro para pagar as custas com o advogado dela.

Preço do silêncio

A ex-escrivã confirmou que o delegado João Bosco, da Polícia Civil, a procurou e a seu irmão, Joamildo Barbosa, em 2000, para propor R$ 300 mil para que ela ficasse de “boca fechada”.

Ela disse, também, que, recentemente, Joamildo recebeu uma proposta para que Árias se calasse e não citasse o nome de Josino, durante a realização da oitiva, no Tribunal do Júri.

No entanto, ao contrário do que foi dito por seu irmão em Juízo – ao afirmar que foi abordado pela esposa de um preso, em um bar no bairro Morada do Ouro –, ela afirmou que uma pessoa ligou para Joamildo, de dentro do presídio Pascoal Ramos, para fazer a proposta, a mando de Josino.

No entanto, apesar das pessoas que tentaram “comprar” seu depoimento terem oferecido altas somas em dinheiro e fazerem referências ao silêncio dela quanto ao nome de Josino no processo, Árias afirmou, por diversas vezes, não ter conversado pessoalmente ou por telefone com o empresário.

Ela afirmou que nem mesmo aqueles que a procuraram com ofertas se apresentaram como intermediadores de Josino, e que teve conhecimento da existência do empresário por parte de Leopoldino, que chegou a mostrar uma foto de Josino, em frente à sua residência, em Chapada dos Guimarães, em companhia de vários desembargadores. Ela não citou nomes.

 

 

 

Publicação: Ivone Lima

Pontaldoaraguaianews.com