29-12-2011-Rodas de samba. Como vivem os ministros que deixaram o governo

Na noite de 17 de novembro, pouco mais de três meses após sair do governo, o ex–ministro da Defesa Nelson Jobim participou de um jantar em São Paulo. À mesa estavam personagens como o ex–presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, e o empresário Marcos Molina, dono do frigorífico Marfrig. O assunto era a série de demissões no governo da presidente Dilma Rousseff e Jobim, rindo, provocou.

  - Eu sou inocente.

 

Com a frase, Jobim deixava claro: foi o único que não saiu da Esplanada dos Ministérios sob uma avalanche de denúncias. Tanto que hoje transita com desenvoltura entre políticos graduados e é presença constante em encontros promovidos pelo vice-presidente Michel Temer.

A “inocência” de Jobim também é bem vista por grandes clientes que o querem como advogado. Ainda em novembro, no auge da disputa entre o grupo francês Casino e o Pão de Açúcar pelo controle da operação brasileira, Jobim recebeu um convite dos franceses para integrar seu time de advogados na briga contra Abílio Diniz. Declinou. Ele tem preferido fazer consultorias e pareceres.

Destino diferente tiveram os outros demitidos. Toda vez que um ministro deixa o cargo, o Código de Ética Pública exige um período de quarentena de quatro meses para que eles possam voltar a exercer alguma outra função. Alguns respeitam, mas outros continuam desempenhando cargos públicos.

Esse é o caso de Alfredo Nascimento. Ex-ministro dos Transportes, ele reassumiu o mandato de senador pelo Amazonas (PR) e também voltou a ser presidente da legenda, cargo que era exercido interinamente pelo deputado Valdemar Costa Neto (SP).

Nascimento já consumiu R$ 48.044,28 em verba indenizatória desde que voltou a ocupar a cadeira de senador. É dinheiro que utilizou para custear passagens aéreas entre Brasília e Manaus e para manter o escritório político que possui na capital amazonense.

De acordo com o site do Senado, Alfredo Nascimento não apresentou nenhum projeto de lei desde que deixou de ser ministro. Seus pronunciamentos na tribuna da Casa, cinco no total, foram sobre sua renúncia ao ministério, sobre a postura de independência do PR ao governo Dilma, pelo aniversário da Rede Amazônica de Rádio e Televisão, sobre a crise na segurança pública de Manaus e uma homenagem ao aniversário da cidade. Nessa ordem.

Nascimento tem mostrado predileção mesmo é pela articulação da volta do PR à Esplanada dos Ministérios. Sem um cargo de grande visibilidade desde que a pasta foi parar nas mãos do atual ministro, Paulo Sérgio Passos, o partido aguarda a reforma ministerial que deverá ser promovida em janeiro para tentar colocar alguém da confiança de Nascimento no governo.

Enquanto isso, a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal investiga as denúncias de superfaturamento em contratos de construção e manutenção de rodovias federais tocadas pela pasta e por estatais, como o Dnit e a Valec. Nascimento, por sua vez, aguarda o resultado do julgamento no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que pode decidir pela cassação de seu mandato, acusado de irregularidades cometidas em sua campanha nas eleições de 2006.

Ausente

Pedro Novais, ex-ministro do Turismo, é outro que circula pelo Congresso Nacional desde que saiu da Esplanada. Avesso a qualquer aparição, nega pedidos de entrevista e desconversa sobre o período no ministério mesmo sendo o único ex-ministro abalado por escândalos de corrupção que não tem qualquer investigação diretamente associada a ele ou sua atuação na pasta.

Novais tem sido mais comedido nos gastos. Desde setembro, sua cota parlamentar consumiu R$ 11.536,68 – declarados na página da Câmara dos Deputados. Assim como o ex-colega Nascimento, também não apresentou qualquer projeto. 

O retorno para Novais tem sido duro, se comparado aos tempos de ministro de Dilma Rousseff. Até para fazer parte dos debates na Câmara ele teve de contar com a ajuda dos colegas, que cederam uma vaga na Comissão de Finanças e Tributação, a única da qual participa no momento. E das sete sessões da comissão, faltou a quatro.

Sossego

Outros dois ex-ministros envolvidos em problemas com Justiça parecem também dividir a predileção pelo descanso. Orlando Silva, ex-Esporte, contratou o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay, para cuidar de sua defesa. Enquanto Kakay se movimenta pelos tribunais, Orlando tem promovido rodas de samba em sua casa, em São Paulo.

É pela capital paulista que também trabalha para se eleger vereador pelo PCdoB e, por tabela, colocar Netinho de Paula na cadeira de prefeito. Para isso, o partido já o convocou para liderar um movimento que pretende dobrar o número de filiados à legenda.

Wagner Rossi, ex-ministro da Agricultura, é outro que trocou o planalto pela planície, mas não anda tão contente quanto o ex-colega do Esporte. Amigos dizem que ele ainda está muito magoado com a imprensa pela divulgação das denúncias que o derrubaram. 

Para a Polícia Federal, ele é considerado“líder de uma organização criminosa”. Até por isso, tem se dedicado cada vez mais às suas fazendas em Ribeirão Preto e aproveitado para tomar sol vez ou outra em praias no litoral paulista.

Consultoria

Antonio Palocci, em sua segunda passagem pelo governo, refez o caminho natural de quase todos os ex-ministros em cargos estratégicos: virou, mais uma vez, consultor. A Projeto, empresa que foi responsável pelas denúncias de enriquecimento que levaram à sua demissão, mudou seu objeto social e abrigou dois novos sócios: um sobrinho de Palocci e um economista.

Assim como nos tempos de chefe da Casa Civil (e, anteriormente, de ministro da Fazenda de Lula), Palocci continua com sua agenda lotada de encontros com grandes empresários e industriais. A rigor, a Projeto virou uma “consultoria empresarial e financeira”, nada diferente dos serviços que já prestava anteriormente.

Vinte quilos mais magro que na época em que estava no governo, Palocci tem se exercitado a pedido da mulher, Margareth. Costuma encontrar expoentes do PT, mas tem evitado a ligação partidária como forma de abafar o fogo amigo. Seu interlocutor preferido continua sendo o ex-presidente Lula, a quem foi visitar no hospital Sírio Libanês a pedido do próprio. Sinal de que pode ter perdido o cargo, mas não a influência.

 

Fonte: R7